
Amigos, li em algum lugar que hoje (minto: ontem. Já passa da meia-noite, e já estou alcoolizado) é o Dia Nacional da Alfabetização.
Gay Taleese, considerado o maior jornalista americano da atualidade, certa vez perguntado por qual motivo o levava a escrever, respondeu algo mais ou menos assim: porque a escrita é o meio pelo qual consigo me expressar com maior clareza, que consigo me expressar melhor.
Independente da formação acadêmica ou humanista de cada um de nós, cedo ou tarde, as ideias que formulamos, sejam elas sobre a glândula pineal ou sobre a reforma do Código de Processo de Penal, para que sejam dignas de credibilidade e aceitação em qualquer meio acadêmico ou leigo, quer nós queiramos ou não, será através da linguagem escrita que seremos obrigados argumentar em seu favor. E muito do sucesso ou fracasso de qualquer empreitada nesse sentido será devido a nossa capacidade de expressão de nossas ideias.
Antes que esse texto comece a ficar chato demais, vos deixo com essa obra-prima de João Cabral de Mello Neto, que peço a licença aos amigos do Cocada pra julgá-lo como um dos maiores poetas de sempre.
Rio sem Discurso
A Gabino Alejandro Carriedo
Quando um rio corta, corta-se de vez
o discurso-rio de água que ele fazia;
cortado, a água se quebra em pedaços,
em poços de água, em água paralítica.
Em situação de poço, a água equivale
a uma palavra em situação dicionária:
isolada, estanque no poço dela mesma,
e porque assim estanque, estancada;
e mais: porque assim estancada, muda,
e muda porque com nenhuma comunica,
porque cortou-se a sintaxe desse rio,
o fio de água por que ele discorria.
*
O curso de um rio, seu discurso-rio,
chega raramente a se reatar de vez;
um rio precisa de muito fio de água
para refazer o fio antigo que o fez.
Salvo a grandiloquência de uma cheia
lhe impondo interina outra linguagem,
um rio precisa de muita água em fios
para que todos os poços se enfrasem:
se reatando, de um para outro poço,
em frases curtas, então frase e frase,
até a sentença-rio do discurso único
em que se tem voz a seca ele combate.